terça-feira, 22 de setembro de 2009

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“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
Albert Einstein.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Discussões

C. S. Lewis

Publicado em St James Magazine (St James’s Church, Birkdale, Southport, Dezembro de 1945), e reproduzido em Undeceptions (1971) e Christian Reunion (1990).Tradução de Djair Dias Filho (setembro/2008)

1
“Sim”, disse meu amigo. “Eu não vejo por que não deveria haver livros no Céu. Mas você descobrirá que sua biblioteca no Céu contém somente alguns dos livros que você teve na Terra”. “Quais?”, perguntei. “Aqueles que você deu ou emprestou”. “Espero que os emprestados não estejam com todas as sujas marcas de dedo de quem os pegou emprestado”, disse eu. “Ah, terão, sim”, disse ele. “Mas como as feridas dos mártires terão se transformado em adornos, assim você descobrirá que as marcas de dedo terão se transformado em belas iluminadas letras maiúsculas ou em primorosas gravuras à margem”.
2
“Os anjos”, disse ele, “não têm sentidos; a experiência deles é puramente intelectual e espiritual. É por isso que conhecemos algo sobre Deus que eles não conhecem. Existem aspectos particulares de Seu amor e alegria que podem ser comunicados a um ser criado somente pela experiência sensória. Algo de Deus que os serafins jamais entenderão direito flui até nós do azul do céu, do gosto do mel, do delicioso envolver da água, seja fria ou quente, e mesmo do próprio dormir”.
3
“Você sempre me é um peso”, disse eu ao meu Corpo. “Um peso para você”, replicou meu Corpo. “Bem, gostei dessa. Quem me ensinou a gostar de tabaco e álcool? Você, é claro, com sua estúpida idéia juvenil de ser ‘grandinho’. Meu paladar odiou a ambos, em princípio: mas você prefere fazer sua vontade. Quem pôs um fim a todos aqueles pensamentos irados e vingativos, ontem à noite? Eu, é claro, ao insistir que fosse dormir. Quem dá o seu melhor para deixá-lo longe de falar muito e comer muito, deixando-lhe seca a garganta, dando-lhe dores de cabeça e indigestão? Hein?” “E com respeito ao sexo?”, disse eu. “Sim, o que tem ele?”, revidou o Corpo. “Se você e sua desgraçada imaginação me deixassem em paz, eu não lhe daria trabalho. Isso tem tudo a ver com a Alma; você me dá ordens e depois me culpa por executá-las”.
4
“Orar por assuntos específicos”, disse eu, “sempre me parece como aconselhar a Deus sobre como conduzir o mundo. Não seria mais sábio supor que Ele sabe o melhor?”. “Por esse mesmo princípio”, disse ele, “imagino que você nunca peça a uma pessoa ao seu lado para passar o sal, porque Deus é quem melhor sabe se você deveria comer sal ou não. E imagino que você nunca leve um guarda-chuva, porque Deus é quem melhor sabe se você deve se molhar ou ficar seco”. “Isso é muito diferente”, protestei. “Não vejo por que”, disse ele. “O realmente estranho é que Ele deva deixar-nos influenciar o curso dos eventos. Mas uma vez que Ele nos deixa fazê-lo de uma maneira, não vejo por que Ele não deva deixar-nos fazê-lo de outra”.

Referência:
C. S. Lewis – Essay Collection: Faith, Christianity and the Church. Londres: HarperCollins, 2002, pp. 346, 347.

Walking Around


Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas.

Que acontece a uma música

Juan Ramón Jiménez

Que acontece a uma música,
quando deixa de soar;
e a uma brisa que deixa de voar,
e a uma luz que se apaga?
Morte, diz:
que és tu, senão silêncio, calma e sombra?

Nada é impossível de mudar

Bertold Brecht

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.